Por que treinadores brasileiros não redescobrem a essência de nosso futebol?

Sobre volta às atividades de Ponte Preta e Guarani, continuem à vontade pra se posicionarem nos espaços de publicações anteriores, quando os assuntos foram debatidos.

Agora o tema é complexo. Tem abrangência sobre a cara do futebol brasileiro, os seus respectivos treinadores e novos eixos até acadêmicos para condicionamentos de elencos.

Caso o 'ceis' não tiverem interesse pelo assunto, nem prossigam na leitura.

CHATICE

Àlgum tempo tenho dito que o futebol brasileiro está chato, notadamente entre equipes de segundo e terceiro escalão.

Por que esse retrocesso? Essa escassez de qualidade?

Motivos são vários e a contextualização é abrangente, a começar pela falta de renovação de talentos.

Não se faz jogadores como antigamente pela mudança de comportamento da criança e adolescente.

Se antes brotavam campinhos em terrenos de bairros e havia gostosura para se participar de 'peladas', os hábitos hoje são outros.

Evolução dos centros urbanos tiraram esses espaços da garotada, que passou a buscar outras alternativas, principalmente em celulares e jogos eletrônicos.

Então, aquele moleque que não gastava mais de dois minutos para atingir o pico de um abacateiro, pela agilidade com os pés, virou raridade.

O que tem uma coisa a ver com a outra?

Pés que deslizavam com rapidez em galhos, eram os mesmos que faziam a bola ficar grudada aos pés. Só isso.

DRIBLE

Na saída da terra para a grama, bola colada aos pés da molecada indicava dribles desconcertantes, que desmontavam marcadores, principalmente os chamados 'cinturas duras'.

Isso contrasta com atuais tecnocratas da bola que gritam aos quatro cantos para que os clubes disponham de centros de treinamentos exemplares, a fim de que a garotada da base possa evoluir.

Questão de conceito, mas fico com a experiência própria de que o 'terrão' induzia o garoto a ganhar habilidade, visto que buraqueiras dos campos provocam mudança na rota da bola, e aí pés hábil eram condicionados a corrigi-la.

FUNDAMENTOS

Na seleção natural dos melhores garotos que chegavam em clubes, o princípio dos 'professores' que comandavam categorias infantil, juvenil e juniores era fundamento.

Tática, pra valer, apenas nos juniores.

Treinadores destas faixas etárias ensinavam o atleta a bater na bola, de forma a se envergonhar de erro em passe de quatro metros.

Destro que usava o pé esquerdo apenas para subir em ônibus era obrigado a treinar e aprender a usar o pé bobo, e assim sucessivamente em relação ao canhoto.

Havia treino específico para cabeceio, de forma que era proibido rechaçar a bola para o lado em que o nariz estivesse virado.

O garoto já era condicionado ao passe de cabeça, geralmente para companheiro na lateral, quando da intercepção.

Lançamento longo era permitido pra quem havia recebido dádiva pra coisa.

Intrusos que se atreviam a isso eram severamente advertidos pelos companheiros, na base do 'não invente, faça o feijão com arroz'.

CENTROAVANTES

Raros eram os centroavantes que desperdiçavam oportunidades claras de gols.

Na base treinava-se insistentemente deslocar a bola do goleiro, principalmente aqueles que se esborrachavam no chão para cobrir o ângulo, e deixavam o 'cantão' pro dito cujo só dar uma cavadinha na bola.

DESCONGESTIONADO

Esse negócio do uso abusivo de boleiros de uma equipe se embolarem numa beirada de campo e optarem por toques curtos, com finalidade de a jogada progredir até a intermediária contrária implica em o adversário concentrar igualmente vários jogadores por ali e, comumentemente, observa-se erros de passes ou facilidade de desarme para o adversário.

A consequência disso é a imediata recomposição de atletas após a perda da bola, com consequente desgaste físico que deveria ser explorado em construções de jogadas.

Por essa e outras razões é que se diz que hoje o atleta é obrigado a correr bem mais, em contraste com sábia postura de boleiros do passado, que faziam frequentes 'viradas de jogo', para exploração do espaço descongestionado.

DRIBLADOR

Neste diapasão, quando da aproximação da área adversária, havia prevalecimento da técnica, do driblador que sabiamente escapava de um ou mais na marcação, provocando, incontinente, condições para companheiros completarem jogadas.

Mesmo com clubes desprovidos de talentos de outrora, cobra-se de treinadores sabedoria de suas equipes para reduzirem incidência de erros de passes e ocupação de espaços vazios para atletas terminarem as jogadas.

FUNDO DE CAMPO

São raros os treinadores que trabalham rápidas jogadas de fundo de campo, de forma que cruzamentos visem o atacante de frente para a bola na disputa direta com zagueiros posicionados ao lado dela.

Como se vê tanta incoerência da treinadorzada brasileira, cartolas apostam naquilo que sugerem ser o diferente: importação do comandante.

Se o português Jorge Jesus e o argentino Jorge Sampaoli mostraram coisas diferentes nas passagens por Flamengo e Santos, respectivamente; se Abel Ferreira leva o Palmeiras a títulos retumbantes, no imaginário da 'cartolada' o jeito é buscar gente de fora, na expectativa de sucesso.

Estrangeiros são bem-sucedidos porque exigem que o atleta esteja no esplendor da forma física para vagas em equipes.

Desta forma, aliam competência técnica-tática à indispensável capacidade de gestor, sem o característico corporativismos de treinadores do país, habituados à tolerância a atletas que ignoram obrigações profissionais.

Melhor seria a treinadorzada brasileira recorrer ao passado para redescobrir o óbvio e assim valorizar aquilo que já foi essência em nossos clubes.